27/07/09
Aquilo que nunca foi
Ele — Bom-dia.
Ela (Bastante depois.) — Bom-dia. (Sorri-se.)
Ele — Faz-me o favor. Sabe dizer-me o nome deste sítio?
Ela — Aqui não é sítio nenhum.
Ele — É a primeira vez que estou em sítio nenhum.
Ela — Para onde é que o senhor deseja ir?
Ele — Para sítio nenhum. Vou de passeio. Ao acaso. Gosto de saber os nomes por onde ando.
Ela — Aqui não tem nenhum nome.
Ele (Olhando a cena.) — Uma casa. Não se faz uma casa em sítio nenhum.
Ela — Isto esteve para ser um sítio com um nome. O senhor viu aqui uma casa. Chama a isto uma casa?
Ele — Os restos de uma casa.
Ela — Nem isso. Também não. Não chegou a ser uma casa. Ficou a meio.
Ele — Não passou das paredes.
Ela — Ficou parada à nascença. Para sempre.
Ele — Não parece obra recente.
Ela — Nem antiga. O que é velho parece antigo. Mas o antigo não envelhece.
Ele — Esta ficou no começo e envelheceu.
Ela — Envelheceu parada de nascença.
Ele — Ruínas do que não se fez.
Ela — Bastante modernas.
Ele — Por qualquer razão não foi adiante.
Ela — Não foi. Não foi uma casa.
Almada Negreiros, Deseja-se Mulher (excerto)
23/07/09
Inspiração do dia seguinte…
A inspiração é como o período nas mulheres, surge quando menos se espera. E quanto mais se espera menos se recebe. O que lembra outra analogia, diferente no seu expoente mas com um denominador comum: a mulher. O expoente seria o objectivo. E no que toca ao expoente, a mulher não aprecia propriamente os dias premiados pela sua fertilidade desperdiçada. Mas quando estes não lhe saem na rifa o caso muda de figura, estuda minuciosamente o calendário, o mês, conta ansiosamente os dias de intervalo entre um sorteio e outro. Às vezes o prazo deste já passou, ou então, a mulher jogou nos números errados. O mesmo se passa com a inspiração…às vezes só no dia seguinte…
Meias verdades...
Se mentir bem é complicado, pior será dizer a verdade. É difícil expressá-la concretamente, não é que me faltem os termos, mas falta-me o jeito, ninguém gosta de a ouvir…digo que não sei…mas não é verdade…caso contrário não a mencionaria, já que não me apetece mentir. Se não existisse nada, não escrevia e o nada não é nada, ou melhor, é nada, zero, não tem passado, nem presente. Logo, seguindo esta linha de raciocínio, a verdade a que me refiro, encontra-se entre o nada e o qualquer coisa. A maior das dificuldades será determinar se o x existente entre o nada e o qualquer coisa passará de verosímil a verdade propriamente dita, o que dificulta ainda mais toda a interpretação anterior, já que o contrário de uma grande verdade é uma verdade grande também.
Rebentou-se a bolha de ar e accionou-se o piloto automático.
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